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NICOLE PIOCHI

A mãe: rotina, corpo, casamento, trabalho · 25 de julho de 2026 · 3 min de leitura

A mãe atípica e o corpo que ninguém examina

Numa casa com uma criança que exige muito, quem costuma sair da fila de cuidado é a mãe. Isso não é falha de caráter, é o que acontece quando o dia não cabe. Voltar para a fila começa pequeno: marcar um exame atrasado, dormir uma hora a mais, e tratar o próprio corpo como parte do plano de cuidado da família.

Quando foi o seu último exame de rotina?

Se você levou alguns segundos para lembrar, esse texto é para você. E eu não vou te dar sermão, porque eu fui exatamente assim.

O que acontece com a gente

Numa casa atípica, existe uma fila de cuidado. A criança que precisa mais vem primeiro, e isso está certo. Depois vem o outro filho. Depois a casa, o trabalho, a terapia, o convênio, o recurso do plano que foi negado.

A mãe entra na fila em algum lugar depois disso, e a fila nunca acaba.

Não é que a gente se esqueceu. É que nunca sobra.

O corpo cobra em silêncio

O corpo não avisa educadamente. Ele avisa depois, e caro. Sono ruim que virou insônia. Dor nas costas de carregar. Dente que dói há meses. Consulta remarcada quatro vezes.

Eu passei anos sendo mãe de pronto-socorro: só resolvia o que estava em chamas. E o que não estava em chamas era sempre eu.

O que funcionou aqui, e é pequeno

Uma coisa por mês. Não um plano de saúde inteiro. Uma coisa. Este mês, o exame de sangue. Mês que vem, o dentista.

Marcar antes de sair da consulta. O retorno se marca no balcão, não depois pelo aplicativo, porque depois não existe.

Colocar no calendário com o nome de outra pessoa. Meio truque, meio verdade: se está escrito “consulta”, eu desmarco. Se está escrito como compromisso, eu vou.

Uma hora de sono a mais em vez de uma hora de celular. Eu sei o que é aquela hora depois que todo mundo dorme, a única do dia que é sua. Só que ela custa caro na manhã seguinte, e a manhã seguinte é de todo mundo.

Movimento que não vira mais uma tarefa. Aqui foi natação. Não pelo corpo: pelos quarenta minutos em que ninguém pode falar comigo.

Sobre pedir ajuda

Essa é a parte difícil, porque envolve admitir que a conta não fecha sozinha.

A conta não fecha sozinha. Não porque você é fraca. Porque uma casa com duas necessidades ao mesmo tempo foi feita para mais de uma pessoa cuidar.

Se tem alguém oferecendo, aceite. Se ninguém está oferecendo, peça algo específico: “você pode ficar com ela terça das duas às quatro?”. Pedido vago quase sempre morre. Pedido com dia e hora acontece.

O argumento que talvez te convença

Se cuidar de você não parecer razão suficiente hoje, use esta: você é parte da estrutura de cuidado do seu filho. A sua saúde é infraestrutura da casa dele.

Não é egoísmo. É manutenção.

E se você chorar no carro

Chore. Muita mãe atípica tem esse lugar, e é quase sempre o carro, sozinha, com o motor desligado.

Só não deixe que ele seja o único lugar. Se a tristeza está durando, se está tirando a vontade das coisas, procure ajuda profissional. Isso é cuidado, não é fraqueza.

Perfeição não mora aqui. Presença, sim. E presença precisa de alguém inteiro.

Você não está sozinha. 💛


Este texto é relato e orientação parental. Ele não substitui avaliação nem acompanhamento de profissional de saúde física ou mental.

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